Sou do tempo em que as grandes ideologias dos tempos modernos foram passadas à prática e falharam. Ainda assim durante anos culpavam-se os comunistas, de cá e do outro bloco, de todos os males da terra ou do planeta. Quando em 1989 o Muro de Berlim foi derrubado muitos festejaram mas poucos ficaram convencidos da vitória da democracia sobre regimes opressores. Não faltam manobras imperialistas, nem exemplos de que vale tudo. Lá por fora e cá dentro não surpreende a ausência de proposta, nem cabeças perdidas, muito menos episódios de vil intimidação. A luta não é entre vermelhos e os pseudo-defensores da liberdade, sejam eles quem forem. Mantém-se a luta mesquinha entre grupos de interesse, mas agora as antigas famílias não defendem apenas a sua posição e os seus valores, elas próprias viram-se ultrapassadas por falsos burgueses, sem elmo e sem alma, mas rodeados de novos pajens alimentados por promessas e afirmações prometaicas. Entre bandeirinhas, mercados e arruadas agem como se fossem deuses e salvadores dos mais fracos. Falha-lhe a memória, pois da última vez que tudo se encenou apenas alguns se salvaram, foi e assim será.
Uns apresentam medidas com as quais pretendem enterrar todo o orçamento. Não preciso citar exemplos, mas basta pensar em determinadas propostas apresentadas como sendo a solução para determinado problema, sendo que não se dão ao trabalho de avaliar quais são de facto os problemas. Falta sentido estratégico ás candidaturas, falta aliás sentido de estado, basta pensar no quase certo tiro no pé se o TGV avançar por imposição externa ou apenas para se honrar os compromissos nacionais. Não quero com isto tomar partido por ninguém, pois não sou vermelho, nem rosa, nem laranja, nem azul, pior ainda, faço parte de um grupo de portugueses, ao que parece muito grande, desencantado com a política e com os políticos e que aguarda por um milagre para tomar uma decisão à possibilidade de votar num dos candidatos ou, pior ainda, acreditar que ainda vale a pena votar.
Se bem se lembram, se não lembram recordo, sempre defendi que a democracia não se esgota na ida à mesa de voto, esse gesto soa a fazer o jeito a alguém. A democracia é para mim uma prática quotidiana. Votarei em quem representar o que desejo para o país, mas exijo a responsabilização dos eleitos face aos eleitores. Obviamente não se trata de um mecanismo coercivo, refiro-me a uma prática quotidiana de cidadania activa que envolva os cidadãos e seja visto pelas instituições como um instrumento democrático perfeitamente normal e indispensável nos processos de tomada de decisão. Infelizmente não é essa a abertura das instituições, aliás, como sabem, estive recentemente envolvido num exemplo contrário ao ver a nossa autarquia a tomar uma decisão de boicote à nossa intervenção associativa recorrendo a argumentos objectivamente legítimos. Como digo de forma recorrente, ir tomar café no estabelecimento X ou no estabelecimento Y é uma decisão política. Sim, é uma decisão política. Não do foro político-partidário, mas uma decisão política, pois a minha decisão pode contribuir para que determinado número de pessoas passe a frequentar apenas um estabelecimento e assim o outro se veja obrigado a despedir funcionários ou mesmo a fechar portas. E não adianta argumentar que num se fuma e no outro não, ou que tem dado provas da sua qualidade e o outro não. Ir a votos não é muito diferente, pois estamos fartos de ver cartazes, de ver a caravana passar e de tanta concentração de interessados em convencer-nos seja do que for. Mas nós só queremos saber o que pretendem, o que defendem e que argumentos usam. Será pedir muito? Enquanto eleitores apenas pedi-mos honestidade e integridade, de promessas e artes de bem viver estamos fartos.